Oração ao tempo“...Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo
...E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo
...Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo”
Essa letra de Caetano Veloso é muito pertinente!!!
Há pouco mais de um mês fui assistir uma peça de teatro que falava sobre o tempo; dos dias, das horas, além da pedra durante todo o processo histórico.
O nome da peça é “O calendário de pedra” de Denise Stoklos . A interpretação dela me comoveu profundamente e me fez refletir sobre o assunto, assim como me inspirou, de certa forma, a escrever essas linhas.
No decorrer da peça, através da interpretação da atriz percebemos o quanto de nós está naquela personagem; o como vivemos daquela forma e nem nos damos conta disso, o quanto nos deixamos envolver por coisas que são tão pouco importantes para o nosso processo de individuação (situação em que nos tornamos nós mesmos, inteiros, indivisíveis e distintos dos demais ou da psicologia coletiva mesmo tendo relação com ela) e toda a nossa vivência.
Durante as várias falas da atriz (a peça é um monólogo), pensava: como somos tolos, vivemos em função do tempo e dos outros!! Afinal, era isso mesmo que o espetáculo queria mostrar e provocar!!
Pensei: Nós não aproveitamos o que de fato o tempo nos dá, que na verdade é a possibilidade de viver, apenas viver, sentir, e não só sobreviver. Estar aqui e fazer coisas que sempre nos leva a “posições” de todas as espécies é viver como escravos do tempo da pior maneira possível. Ainda a tempo de refletir e fazer diferente, fazer a diferença. Podemos viver o tempo de maneira mais gostosa, mais real e menos voltado pelos valores impostos.
Em um dado momento da peça Stoklos cita o filósofo Sócrates: “Só sei que nada sei”. E também uma frase sobre a morte: “A morte é a única certeza que temos, só que não sabemos quando acontecerá”. Essas duas frases me fizeram pensar sobre as verdades. Será que posso pensar que ao compreender essas duas frases poderei viver mais feliz, em busca de algo que não sei e nem preciso saber o que é?!
Ficou evidente no espetáculo a necessidade que temos de aprender, e absorver o quanto antes tudo aquilo que se faz importante aos olhos da sociedade, aos olhos do sistema em que vivemos. Assim, por um lado a informação nos torna escravos, e no mundo em que vivemos, cada vez mais, nos vendem a idéia de que precisamos dela, por outro o que necessitamos de fato é de formação humana, para inclusive entender como desperdiçamos o tempo precioso.... Como lembra a letra de Lenine tocada em certa parte da peça: “... O tempo é tão raro... Será que temos esse tempo todo pra perder?”.
O personagem interpretado por Stoklos não olhava para si profundamente, senti falta de uma introspecção maior e isso me deixou com uma sensação de tristeza e frustração ao mesmo tempo, pois sei que nos dias atuais as pessoas realmente se olham cada vez menos. Nesse sentido, a personagem e as reflexões de Stoklos são reais, e por isso incomodam tanto. O que mais importa hoje é sempre o que temos e não o que somos!
Bye

